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Cigarros eletrónicos, produtos de tabaco aquecido e sem fumo

Produtos com nicotina, como cigarros eletrónicos e produtos de tabaco aquecido, estão a ganhar popularidade como alternativa aos cigarros. Este folheto informativo analisa os diferentes produtos disponíveis e avalia se a sua utilização é segura para os pulmões.

Última atualização 05/02/2021
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Cigarros eletrónicos


Um cigarro eletrónico é um dispositivo alimentado a bateria que permite ao utilizador inalar nicotina através de um vapor. Estes cigarros são referidos por vezes como sistemas eletrónicos de entrega de nicotina (ENDS, na sigla inglesa). Este termo também engloba dispositivos como tabaco vaporizado (“vapes”), narguilés eletrónicos, cachimbos eletrónicos e charutos eletrónicos. Estes dispositivos funcionam pelo aquecimento de um líquido que se transforma em vapor que os utilizadores podem inalar, ou “vaporizar”. Apesar de o vapor se assemelhar ao vapor de água, ele não contém água. O líquido é composto por químicos denominados propilenoglicol e/ ou glicerina e pode ter diferentes aromas e quantidades de nicotina, à escolha do utilizador. Ao contrário dos cigarros tradicionais, os dispositivos não contêm tabaco.

Quão seguros são os cigarros eletrónicos?


A pesquisa sobre a segurança dos cigarros eletrónicos tem-se revelado complexa pois existem diferenças entre dispositivos e também na forma como as pessoas os utilizam. Acresce a isto o facto de os cigarros eletrónicos estarem em constante mudança com o surgimento de novos dispositivos; existem atualmente centenas de marcas e milhares de aromas disponíveis. Como os produtos são relativamente recentes, não existem estudos a longo prazo sobre o impacto dos cigarros eletrónicos ao longo da vida de uma pessoa. As doenças causadas pelo ato de fumar podem demorar entre 30 a 50 anos a desenvolver-se e a disseminação da utilização dos cigarros eletrónicos apenas começou no início dos anos 2000. Isto significa que ainda não é conhecida a sua segurança a longo prazo. Existem muitos estudos que incidiram sobre o impacto dos cigarros eletrónicos na saúde a curto prazo. Esses estudos encontraram produtos químicos tóxicos e passíveis de provocar cancro no vapor dos cigarros eletrónicos.

Na generalidade dos casos, esses químicos foram detetados em quantidades menores nos cigarros eletrónicos, quando comparados com cigarros normais. Existe evidência de que as células no corpo expostas ao vapor ficam danificadas e deixam de funcionar, evidenciando assim uma associação entre o vapor e a possibilidade de inflamação e infeções nos pulmões. A inflamação nos pulmões pode provocar dificuldades em respirar, falta de ar e tosse seca.

Os estudos demonstraram que um utilizador de cigarros eletrónicos saudável tem as vias respiratórias irritadas e sinais de bronquite. Inquéritos abrangentes revelaram que os utilizadores de cigarros eletrónicos reportam com mais frequência sintomas respiratórios do que as pessoas que nunca os utilizaram. Uma doença conhecida como lesão pulmonar causada pela vaporização começou a ser observada em 2019. Médicos nos EUA reportaram casos de pessoas com sintomas que incluem falta de ar, febre, tosse, vómitos, diarreia, dor de cabeça, tonturas e dor no peito. Nalguns casos, estas pessoas ficaram muito doentes e tiveram de ser hospitalizadas sendo que, nos casos mais graves, alguns doentes acabaram por morrer. A causa desta doença ainda está por apurar, mas estão a decorrer pesquisas para saber mais. Quase todas as investigações independentes revelaram alguns efeitos negativos para a saúde associados aos cigarros eletrónicos. A evidência existente também indica que os seus danos terão efeitos duradouros e levarão ao desenvolvimento de doenças.

Os cigarros eletrónicos podem prejudicar outras pessoas?


Ainda não se sabe se o vapor de um cigarro eletrónico pode ter efeitos prejudiciais noutras pessoas que estejam perto do fumador. Isto é conhecido como exposição ao fumo em segunda mão ou fumo passivo. Apesar de ser muito provável que os danos causados pela exposição ao fumo passivo sejam menores quando comparados aos danos da exposição ao fumo passivo dos cigarros tradicionais, a investigação disponível é limitada mas sugere que pode existir algum risco, especialmente para as pessoas mais vulneráveis, como idosos, pessoas com doença respiratória ou grávidas. Além do risco da exposição, existe também o risco de danos provocados pela explosão ou ignição espontânea dos dispositivos.

A maior parte dos especialistas acredita que a utilização dos cigarros eletrónicos é prejudicial mas, como não existem dados a longo prazo sobre o desenvolvimento de doenças ao longo da vida, não é possível concluir, nesta fase, o quão prejudiciais são os cigarros eletrónicos

Os cigarros eletrónicos podem ajudar os fumadores a deixar de fumar?


Muitas vezes, os cigarros eletrónicos são utilizados pelos fumadores que estão a tentar deixar de fumar. Normalmente, os cigarros eletrónicos são comprados como bem de consumo. Alguns países estão a considerar a possibilidade de utilizar cigarros eletrónicos como parte do plano de tratamento para deixar de fumar, à semelhança dos métodos tradicionais para deixar de fumar. Mais de 40 países baniram a venda de cigarros eletrónicos.

Os métodos tradicionais para deixar de fumar, como adesivos e pastilhas de nicotina, são normalmente fornecidos numa farmácia, onde o farmacêutico pode oferecer aconselhamento. Os métodos clínicos para deixar de fumar são também regulados como produtos de saúde, com níveis de nicotina controlados, e os utilizadores podem eventualmente ser encaminhados para os serviços psicológicos para obter apoio na luta contra o vício. Os cigarros eletrónicos podem ser comprados em lojas de rua e, por norma, os utilizadores não irão procurar terapias mais abrangentes para os ajudar a deixar de fumar. Os níveis de nicotina variam consideravelmente e não são regulados pelas agências de saúde.

Nenhuma marca de cigarros eletrónicos foi aprovada como auxiliar para deixar de fumar. Existem alguns estudos que demonstraram que os cigarros eletrónicos podem ser utilizados como um auxiliar para deixar de fumar, mas há falta de evidência sobre se estes funcionam tão bem como os métodos estabelecidos. A investigação sugere que a maior parte dos adultos compra cigarros eletrónicos para deixar de fumar. No entanto, a maioria acaba por utilizar os dois, cigarros eletrónicos e tabaco. Existe evidência crescente de que a utilização de cigarros eletrónicos e cigarros convencionais é mais prejudicial do que fumar apenas o tabaco tradicional. Em geral, não existe evidência suficiente para demonstrar se os cigarros eletrónicos podem ser utilizados como ferramenta eficaz para ajudar os fumadores a deixar de fumar.

Existe evidência de que a utilização de cigarros eletrónicos levou a que crianças e jovens adultos começassem a fumar, uma vez que é muito provável que os utilizadores de cigarros eletrónicos experimentem produtos de tabaco. Inquéritos recentes nos EUA e nalguns países europeus mostraram o aumento da utilização de cigarros eletrónicos entre os jovens. Nos EUA, a utilização de cigarros eletrónicos aumentou de 1,5% para 20,8% entre 2011 e 2018

Produtos de tabaco aquecido e sem fumo


Produtos de “tabaco aquecido” ou “tabaco sem fumo” são dispositivos eletrónicos que, ao contrário dos cigarros eletrónicos, contêm tabaco. O tabaco é aquecido até uma temperatura elevada, sem que se acenda, criando assim “fumo” que o utilizador pode sugar. Contém nicotina, aditivos e tem muitas vezes aromas.

Atualmente, não existe evidência que demonstre que estes produtos sejam menos prejudiciais do que os cigarros tradicionais. Efetivamente, foram encontrados mais de 20 químicos prejudiciais em produtos de tabaco aquecido em quantidades superiores às dos presentes no fumo dos cigarros tradicionais; a exposição a químicos prejudiciais é também superior em comparação com os cigarros eletrónicos. Existe alguma evidência da presença de novos químicos nos produtos de tabaco aquecido, que não se encontram nos cigarros tradicionais, e que podem ser tóxicos e prejudiciais. Estudos realizados em animais e em humanos sugerem que os produtos são prejudiciais para os pulmões. Os estudos demonstraram também que não há melhorias na função pulmonar ou na inflamação nos pulmões em fumadores que mudaram para o tabaco aquecido. Os produtos também variam bastante entre marcas, mas existe alguma evidência de que as toxinas encontradas no vapor podem provocar cancro. Não existe evidência que apoie as afirmações de que os fumadores mudam de cigarros tradicionais para a utilização exclusiva de produtos de tabaco aquecido. Atualmente não existe evidência suficiente sobre a possibilidade de a exposição em segunda mão ser prejudicial.

Tabaco sem fumo


O tabaco sem fumo pode ser mastigado ou colocado no interior do lábio (este tipo de tabaco é denominado de “snus”). Este liberta tabaco e nicotina, que entram na corrente sanguínea através da gengiva. Normalmente, os utilizadores cospem muito durante a sua utilização pois o processo produz muita saliva.

A composição dos produtos de tabaco sem fumo varia, mas sabe-se que muitos deles incluem químicos que provocam cancro. A investigação tem associado a utilização de tabaco sem fumo ao cancro e a outras doenças da boca, assim como a doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais. A evidência do risco de cancro devido à utilização de “snus” é inconclusiva.

O tabaco é tóxico e contém toxinas capazes de provocar cancro em todas as formas. A Organização Mundial da Saúde considera que todas as formas de utilização de tabaco são prejudiciais, incluindo cigarros eletrónicos, produtos de tabaco aquecido e sem fumo.

Estratégias para a redução dos malefícios do tabaco


Este folheto informativo apresentou um resumo da evidência disponível sobre a segurança de produtos que alegam reduzir os malefícios para os utilizadores, em comparação com os cigarros tradicionais. “Redução dos malefícios do tabaco” é uma expressão que descreve uma abordagem geral para reduzir os malefícios causados pelo tabagismo. Assistimos a um aceso debate entre os responsáveis políticos sobre a possibilidade de esta estratégia ser implementada para ajudar as pessoas a deixar de fumar. Alguns especialistas acreditam que a redução de toxinas no corpo é o fator mais importante, mesmo que algumas ainda permaneçam. Outros acreditam que não devemos recomendar a utilização de produtos que tenham quaisquer efeitos prejudiciais, mesmo que reduzidos.

Como organizações que trabalham na saúde respiratória, o conselho da European Respiratory Society (ERS) e da European Lung Foundation (ELF), é o seguinte: “Os pulmões humanos foram criados para respirar ar limpo, não toxinas e carcinogéneos. O corpo humano não deve estar dependente de drogas viciantes. A ERS e a ELF não podem recomendar quaisquer produtos prejudiciais para os pulmões e para a saúde humana.”

A presidente da ELF, Isabel Saraiva, não defende a utilização de cigarros eletrónicos e acredita que os pulmões foram criados apenas para o ar limpo. Ela comenta: “Como ex-fumadora, compreendo que é tentador para as pessoas, que pensam que será mais fácil parar de fumar ao substituir os cigarros por cigarros eletrónicos. Se estes estivessem disponíveis quando estava a tentar parar de fumar, não teria sido capaz de quebrar o meu vício da nicotina. Os pulmões foram criados apenas para o ar limpo. Acredito que os cigarros eletrónicos são perigosos, em particular para as crianças. Do meu ponto de vista, apenas é possível deixar de fumar de vez com a ajuda de profissionais de saúde”.

Charlotta Pisinger é a presidente da Comissão de Controlo do Tabagismo da ERS e Professora Clínica do Controlo do Tabagismo nos hospitais Bispebjerg e Frederiksberg e na Universidade de Copenhaga, Dinamarca. A Professora Pisinger explica a posição da ERS e da ELF: “As estratégicas de redução dos malefícios do tabaco baseiam-se em assunções incorretas de que os fumadores não conseguem ou não irão deixar de fumar, mas, na realidade, a maioria dos fumadores quer deixar de fumar e não gosta da sua dependência da nicotina. A maior parte dos novos produtos, incluindo tabaco aquecido e cigarros eletrónicos, são dispositivos de inalação de nicotina e, como tal, não ajudam os fumadores a combater o seu vício da nicotina. Adicionalmente, a estratégia de redução dos malefícios do tabaco não considera que a maioria dos fumadores não muda completamente dos cigarros, mas continua a fumar e a vaporizar. Além disso, há um número crescente de não fumadores que começam a utilizar estes produtos e, em adolescentes, parecem ser o primeiro passo no sentido de fumar cigarros tradicionais”.

Este folheto informativo foi produzido em março de 2020.

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